Missão África

Como vencer a tirania da sua língua materna

Por que adultos têm dificuldade em aprender um novo idioma e como ser bem-sucedido.

De Celso Fonseca

Embora haja algumas pessoas que falam várias línguas em níveis elevados, ao contrário do que se pensa, o nosso cérebro tem algum limite de espaço. Convido você a olhar para essa realidade e entender por que é tão difícil aprender um novo idioma. E mais do que isso, saber por que alguns métodos são mais eficazes que outros.

Estudos que mostram as atividades linguísticas do cérebro em mapas cerebrais indicam como se processam essas habilidades nas diferentes áreas da nossa massa cinzenta: Broca, Wernicke, Giris e Ínsula. E ainda mostram que o resultado será diferente para os que aprendem mais cedo e aqueles que aprendem mais tarde.

1º. Os mais jovens têm o cérebro limpo como um Hard Disc pronto para gravar o primeiro sistema operacional.

Qual é a primeira coisa que seu novo smart phone pergunta a você antes de começar qualquer instalação? A sua língua. 

Para os mais jovens (os que aprendem até no máximo 7 ou 10 anos de idade), o cérebro usa o mesmo espaço para as duas línguas. O mapa cerebral mostra uma superposição quase completa dos dois idiomas nessas áreas. 

Bilíngues tardios (que aprendem uma segunda língua mais tarde na vida) frequentemente apresentam padrões de ativação ligeiramente separados ou adicionais, especialmente na área de Broca — quase como uma “sala” ou “ala” adjacente da mesma estrutura. Quanto mais tarde a língua é aprendida, mais distinta tende a ser a representação neural. 

2º. O nosso cérebro cria e aumenta o espaço para nossas principais práticas.

Os sinais mais importantes que o cérebro recebe são o nosso foco e a nossa prática. É interessante pensarmos em como somos dirigidos, não pelo cérebro, mas pela nossa alma. O cérebro apenas se adaptará ao que mais damos importância. Por isso, a sua motivação no aprendizado do idioma é o que determinará o sucesso.

Norman Doidge, eu seu livro, que explica a neuro plasticidade, “O cérebro que se transforma” fala sobre uma gerra que acontece em nosso cérebro quando tentamos aprender algo novo e diferente:

Há uma interminável guerra de nervos acontecendo dentro do cérebro de cada um. Se pararmos de exercitar nossas habilidades mentais, não só nos esquecemos delas: o espaço no mapa cerebral para essas habilidades é entregue às habilidades que praticamos. Se você se perguntar, “com que frequência devo praticar francês, ou violão, ou matemática para me manter afiado?”, você estará fazendo uma pergunta sobre a plasticidade competitiva.1

Isso explica não só a capacidade que temos de aprender coisas novas, como também os vícios em que podemos cair e que, com o passar do tempo, se tornam tão poderosos em nossas mentes. Talvez seja isso que a Bíblia chama de coração quando insiste em que amemos a Deus de todo o nosso coracão: 

1ª parte: Amarás o SENHOR, teu Deus, com todo o coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Que todas estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração!

2ª parte: Tu as ensinarás com todo o zelo e perseverança a teus filhos. Conversarás sobre as Escrituras quando estiveres sentado em tua casa, quando estiveres andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares.
Dt. 6:5-7. KJA

O mandamento que o Senhor dá aos israelitas é seguido da prática que os ajudará a serem obedientes. Amar a Deus com todo o coração dependerá de colocar as palavras dEle no coração. E qual é o cerne da prática? Podemos sintetizar da seguinte forma: FALAR SOBRE ELA O TEMPO TODO. Acho que essa pequena frase resume a segunda parte. 

O apóstolo Paulo também fala sobre essa guerra que acontece dentro de nós nos seguintes termos:

Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer. Gl. 5:16-17

O que ele chama de carne é a força pecaminosa que está em todo ser humano e que precisa ser vencida pelo Espírito. Essa força se expressa pelo desejo (ou motivação) de algo. O Espírito se refere ao nosso relacionamento com Deus e é baseado na vontade dele. A vontade de Deus é o que é certo fazer. Então, Paulo está dizendo que temos que nos submeter a Deus e desistir de fazer o que é contra ele, o que é errado. 

Voltando ao que o Norman diz, e que é baseado na ciência, nas evidências colhidas em pesquisas, “se pararmos de exercitar nossas habilidades mentais, não só nos esquecemos delas: o espaço no mapa cerebral para essas habilidades é entregue às habilidades que praticamos.” O cérebro é como um recipiente onde você coloca o que quer através da prática, e retira o que seja, através da falta de prática, o que ele chama de esquecimento

3º. Use ou perca

Finalmente, para nós adultos, que queremos aprender um novo idioma, precisamos perder um pouco da nossa língua materna para ceder “espaço” ao novo idioma. Só que isso não é nada fácil. Nós, seres humanos, fomos criados com a habilidade de ouvir e falar e nós gostamos de fazer isso. 

O nosso cérebro sempre será reforçado naquilo que gostamos. O Dr. Mike Chupp se especializou em memorizar as Escrituras e ensina o seu método defendendo que essa é uma disciplina espiritual que ajuda a fortalecer a vida espiritual2. Quem pratica essa disciplina está constantemente repetindo as palavras, revisitando, ensaiando, rebuscando a informação dentro do seu cérebro. Que mensagem mais forte podemos enviar ao nosso cérebro?

Boa parte do desafio consiste em fazer o que gostamos passando da nossa língua materna para a nova língua. O desafio, porém, não é vencer o novo idioma. Segundo Doidge, o desafio é vencer a tirania da sua língua materna:

A plasticidade competitiva em adultos explica até mesmo algumas de nossas limitações. Pense na dificuldade que a maioria dos adultos tem de aprender um segundo idioma. Atualmente, a visão convencional é de que a dificuldade existe porque terminou o período crítico para a aprendizagem de idiomas, deixando-nos com um cérebro rígido demais para mudar sua estrutura em larga escala. Mas a descoberta da plasticidade competitiva sugere que é mais do que isso. À medida que envelhecemos, mais usamos nossa língua materna e mais ela passa a dominar nosso mapa linguístico. É também por nosso cérebro ser plástico — e a plasticidade, competitiva — que é tão difícil aprender um novo idioma e dar um fim à tirania da língua materna.3

Podemos notar que algumas pessoas bilingues que apresentam algum grau de dificuldade em falar na sua língua materna são comuns em pessoas que passam 100% do seu tempo usando a outra língua. O contrário também é verdade. Se nós damos um tempo, foco e esforço pequenos ao nosso novo idioma e passamos grande parte do tempo ouvindo e falando o nosso idioma, nunca avançaremos no novo.

Há pessoas que perdem muito da sua língua materna por falta de uso. Porém é muito mais fácil perder o que adquirimos no novo idioma pela simples falta de uso. 

Concluindo, o avanço está fora da zona de conforto.

Qual das quatro competências da língua4 causa mais desconforto ao praticá-la? O falar. 

Seja qual for o método que você escolher para adquirir o novo idioma, ele deve ser focado na fala. Depois da fala vem a escrita. Tanto um como o outro fazem parte do output, enquanto ouvir e ler são input. Como a Dra. Merril Swain5 nos deixa claro que a aquisição do idioma está na linguagem e nela reside todo o aprendizado. 

Referências

  1. Doidge, Norman. O cérebro que se transforma (Portuguese Edition) (p. 82). (Function). Kindle Edition. ↩︎
  2. https://www.youtube.com/watch?v=HAtuuNBW4hM  ↩︎
  3. Doidge, Norman. O cérebro que se transforma (Portuguese Edition) (pp. 82-83). (Function). Kindle Edition. ↩︎
  4. As quatro competências do idioma são: ouvir, falar, ler e escrever.  ↩︎
  5. https://jalt-publications.org/tlt/articles/2198-output-and-beyond-dialogue-review-merrill-swains-current-approach-sla#:~:text=To%20consider%20in%20more%20detail,the%20reflective%20or%20metalinguistic%20function.  ↩︎

1 comentário em “Como vencer a tirania da sua língua materna”

  1. Jefferson Cordeiro

    Como Vencer a Tirania da Sua Língua Materna
    Por Jefferson Cordeiro
    (Inspirado em um artigo de Celso Fonseca, com reflexões de Greg Thompson e experiências pessoais.)


    1️⃣ A Beleza e o Peso da Primeira Língua
    Celso Fonseca observa com razão que nossa primeira língua ocupa um lugar privilegiado em nossa mente. Ela molda nossos pensamentos, emoções e até a forma como vemos o mundo. Mas chamá-la de tirania exige nuance.

Depois de aprender quatro idiomas e servir entre diferentes povos, percebi que minha língua materna não é minha inimiga — é o solo de onde novas línguas brotam. O que se torna tirânico não é a língua em si, mas o conforto que ela representa. Temos a tendência natural de retornar ao que nos é familiar. O verdadeiro progresso começa quando deixamos essa zona de conforto e entramos no mundo do outro com humildade.

Como diz Greg Thompson, cofundador do Growing Participator Approach (GPA):
“Você não aprende apenas uma língua; você aprende a viver uma nova vida dentro dela.”

Quando compreendi isso, aprender uma língua deixou de ser uma tarefa técnica e se tornou um ato de amor — uma forma de dizer: “Você importa o suficiente para que eu entre no seu mundo.”

    2️⃣ O Cérebro: Não um Disco Rígido, mas um Jardim Vivo
    Celso descreve o cérebro como se tivesse espaço limitado e como se precisássemos “perder” parte da nossa língua materna para dar lugar a uma nova. Admiro sua paixão, mas tanto a neurociência quanto a experiência mostram algo mais belo.

O cérebro não é um HD com capacidade finita — é um jardim vivo. Quando plantamos novas sementes, não arrancamos as árvores antigas; apenas aprendemos a cultivar equilíbrio. Algumas plantas crescem rápido sob o sol do uso diário; outras permanecem adormecidas até que as reguemos novamente.

Por isso, quando deixamos de usar uma língua, ela não desaparece; ela apenas adormece. Reativá-la é como regar um solo seco — exige esforço, mas nunca é começar do zero.

    3️⃣ A Verdadeira Luta: Prioridades em Conflito, Não Falta de Espaço
    Norman Doidge fala sobre “plasticidade competitiva”: aquilo que mais praticamos se fortalece. É verdade — mas a verdadeira competição acontece no coração, não nos neurônios.

Não deixamos de aprender porque o cérebro está cheio; deixamos porque o foco está dividido. Jesus já havia dito:
“Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” — Mateus 6:21

Se o motivo para aprender uma língua é superficial — “para viajar”, “para o currículo” —, a motivação se esvai diante das dificuldades. Mas quando o motivo é o amor, tudo muda.

Aprendi Manjak não para provar inteligência, mas para dizer a alguém sobre Cristo em sua própria língua do coração. Esse tipo de propósito sustenta você mesmo nas fases de cansaço, erro e solidão.

    4️⃣ A Disciplina Espiritual da Imersão
    Celso acerta ao relacionar a memorização das Escrituras com a neuroplasticidade. A disciplina espiritual e o aprendizado de idiomas compartilham o mesmo ritmo: repetição diária, foco e alegria em pequenos progressos.

Greg Thompson nos lembra: “Participar vem antes de produzir.” Primeiro vivemos entre o povo — ouvindo, observando, cumprimentando, rindo, errando. Essa humildade, mais do que regras gramaticais, é o que abre tanto a mente quanto o coração.

O Espírito usa a repetição para formar Cristo em nós (Gálatas 4:19). Da mesma forma, a língua se forma em nós pela repetição vivida em relacionamento. Fluência, assim como santidade, não é conquistada por pressão, mas por permanecer.

    5️⃣ Perdendo o Conforto, Não a Língua
    A frase de Fonseca de que o adulto precisa “perder um pouco da língua materna” contém verdade — se entendida simbolicamente. Não perdemos palavras; perdemos domínio, ego e o instinto de querer estar sempre no controle.

Os adultos que aprendem bem são aqueles dispostos a soar como crianças outra vez — simples, humildes, ensináveis. Quando deixamos de tentar impressionar, abrimos espaço para a graça — tanto na língua quanto na vida espiritual.

    6️⃣ Além da Zona de Conforto
    Fonseca conclui dizendo que falar é a parte mais difícil — e ele está certo. Falar expõe nosso medo. Mas é exatamente aí que a transformação acontece.

Cada vez que ousamos falar, cruzamos a linha entre conhecer sobre uma língua e viver dentro dela. O mesmo acontece com a fé: crer sobre Deus não é o mesmo que caminhar com Deus. Crescer exige risco.

Talvez, então, a “tirania da língua materna” não seja sobre linguagem, mas sobre a tirania da autoproteção. A verdadeira liberdade começa quando o amor se torna mais forte que o medo.

    Conclusão: O Porquê É Mais Importante que o Como
    Celso Fonseca destaca bem a importância da prática e da perseverança. Mas antes da prática vem o propósito.

Você pode estudar durante anos e ainda se sentir vazio se o seu “porquê” não estiver claro. Mas quando o propósito é o relacionamento — com Deus ou com as pessoas —, cada erro se torna sagrado, cada palavra um ato de adoração, e cada progresso um testemunho da graça.

O objetivo não é dominar uma língua, mas servir através dela.

Quando aprender se transforma em amor, até a tirania da língua materna se torna uma história de redenção.

    ✍️ Sobre o Autor
    Jefferson Cordeiro é missionário linguista e pastor assistente na Clinton Road Bible Baptist Church, em Michigan (EUA). Serviu por 23 anos no Senegal, ajudando na tradução do Novo Testamento para a língua Manjak. Fala português, inglês, francês e manjak, e é apaixonado por integrar fé, aprendizado de línguas e compreensão intercultural.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Rolar para cima